domingo, 20 de março de 2011

Odeio gostar de Brasília

Não é que eu não goste de Brasília, muito pelo contrário, desde que cheguei aqui a cidade se pintou de forma mística e interessante, despertou algumas grandes curiosidades por se mergulhar em mistérios e muito mais indignação do que qualquer outro sentimento de amor ou raiva.

Matizes do céu de Brasilia no trajeto para cara no fim do expediente
Uma cidade em que o céu se fez cúpula e saiu distribuindo horizontes pra todos os lados. A alvorada, o entardecer, a aurora, o raiar do dia, as estrelas, a lua, o sol, vênus, marte e júpite, o cruzeiro do sul, todos estão lá, ali, e se virar um pouco mais a cabeça pode ver outra parte de céu pintado pela natureza. E aquele bando de nuvens vindo onde a vista perde a lucidez trazendo mais uma chuva pra reavivar os reservatórios naturais da vegetação do cerrado, da até vontade de filmar. O parque da cidade é um post à parte.

A facilidade dos acessos e a calmaria da cidade a transformam em um ótimo lugar pra se evitar o corre-corre das megalópoles do sul-sudeste, com quase todas as vantagens de uma capital. Eu friso: Quase! Capital é o cabeça, aquele que por definição manda no restante e REFLETE, e refletir estar longe de ser meramente o espelho. Refletir e proporcionar maior quantidade de cultura, é proporcionar arte, é questionar, é pensar, e infelizmente Brasília não está preparada para isso.

Tenho como teoria pessoal, e por isso tão incerta quanto falha, a certeza de que a cidade teve em seu início um grande trauma de infância. Fundada em 21 de abril de 1960, aproveitando-se de um feriado (como uma cidade não tem data festiva própria?! Ainda mais capital do país das festas e dos feriados) a cidade foi em seu quarto ano de existência, palco do golpe que deu poder aos militares e censurou as bocas de nossos artistas. A interação entre as pessoas, o medo da represália, o toque de recolher (que hoje em dia é as 02:00 da matina, mas antes devia ser as 22:00) somado ao fato de que os milicos dispersavam qualquer aglomeração de 3 ou mais pessoas com medo de que fosse algum complô contrario ao poder imposto semearam nessa cidade a desconfiança entre os seus cidadãos e o habito de não cultivar amigos por onde se passa. Fosse ainda democracia, talvez tivéssemos polvilhado o centro oeste de artistas dos mais diversos lugares do brasil e hoje teríamos muito mais noção de quem somos e das nossas grandes misturas.

Luzes da Cidade de Brasília pela Nasa
Em seus 50 anos a cidade tem apenas dois grandes nomes que são citados com orgulho por todos:  JK (Preferência nata desta cidade por siglas) e Renato Russo, o carioca mais brasiliense que já existiu. Os outros grandes nomes como Cássia Eller (também carioca segundo o wikipédia), a Zélia Duncan (de Niterói, cidade da vista mais privilegia) e Dinho Ouro Preto (curitibano), também tiveram essa cidade como padrinha de seus intentos artísticos e de suas buscas por suas identidades culturais. O que vem a ser um contra-senso, pois é justamente o que falta de forma notória em Brasília.

É o pedaço de chão menos brasileiro do país e tem a sina de ser a capital mais provinciana. O sucesso  qualquer custo, o desrespeito pelo consumidor, o descaso pelas suas próprias mazelas e a ausência total de boemia me dão medo. Certamente a culpa não é só dos brasilienses e não pertence também ao estadista JK. A capital no cerrado era prevista na época da coroa, assim como a transposição do São Francisco. Coisas nossas, pra nosso desenvolvimento. Mas nosso ranço português de não perdermos a conexão com as "zoropa" não deixa até hoje nos distanciarmos muito do litoral, fato percebido em todos os olhares que me recriminam por ter trocado a cidade maravilhosa pela cidade que ainda é só um projeto. Ah, esses olhares, acreditem são frequentemente feitos por quem ainda nem conhece o Rio.

Arte do aeroporto com os pontos turísticos principais de BSB

Todo o desenvolvimento esbarra em críticas, tenho certeza de reparar hoje em Brasília a boa vontade para que as coisas mudem, mas tenho certeza que este processo é longo e talvez doloroso. A cidade apresenta muita história, pontos turísticos interessantes e potencial para expressão de culturas em inúmeras artes. A começar pela mídia, os brasileiros deveriam adotar a cidade de Brasília, a que vai além do congresso e dos três poderes, mostrar o povo que teve que se reinventar e ainda constrói a identidade de uma cidade, processo que eu to adorando acompanhar de perto. Costumo me orgulhar em dizer que não há prazer maior do que pousar no Santos Dummont, vendo o Cristo, a Baía da Guanabara e a Enseada de Botafogo. Mas também confesso que é lindo ver as luzes organizadas da cidade moderna mais bem sucedida em ser projetada do mundo, chegando domingo há noite para mais algumas semanas de trabalho, nessas horas chego a conclusão de que Brasília é um ótimo lugar pra se morar, só não sabe ser uma capital muito menos brasileira, mas isso não é de todo importante, nós também não sabemos o que é ser brasileiro. E essa resposta só quem pode nos dar é a nossa arte.


2 comentários:

Celso Faria disse...

Adorei seus comentários. Concordo com uma coisa, continuo achando a vista dos Santos Dummont a melhor do mundo. Acho que só quase perde para a da Niemeyer, quando vamos para a Barra. Saímos do túnel e caimos de cara naquele mundo lindo. Bem, mas se o assunto é Brasília, não me convence as linhas retas, apesar de ser uma cidade deliciosa. O bom é que a gente conhece pessoas legais e ainda estamos construindo nossa cara. Acho que já conseguimos tirar quase toda a família Roriz do poder, isso significa, que estamos caminhando... Parabéns pelo texto. Devia ser publicado. Vi poucas vezes algo tão lúcido sobre a nossa capital.

spotlightier disse...

Obrigado pelo comentário Celsinho, queria ver coisas mais lúdicas sobre Brasília, como não achei muitas, resolvi eu mesmo escrever. Espero que tenhamos mais inspirações, afinal, Brasília também é brasileira e merece nossa atenção. Veio pra ficar, que diga então a que veio.